Tocando Agora: ...

Três a cada quatro professores veem ou sofrem violência na escola toda semana

Publicada em: 26/03/2026 06:20 -

Pesquisa da Unifesp em parceria com a Fundación Mapfre mostra que saúde mental e violências são desafios em escolas de Minas Gerais e São Paulo  

 

As feridas começaram nos olhos. Não demorou muito até que o corpo estivesse tomado. “Minha mão ficava na carne viva. O pescoço e a nuca ficaram tão machucados que eu tinha vergonha de amarrar o cabelo”, contou Ana*, professora mineira de 34 anos. No primeiro momento, ela não imaginou que o estresse que enfrentava dentro da sala de aula tinha relação com a dermatite que desenvolveu. Os testes para alergia foram negativos. A conclusão: o corpo dela gritava socorro em um cenário de agressões e de deterioração da saúde mental de alunos e profissionais da educação presenciado em silêncio por ela nas escolas por onde passou. Três a cada quatro professores de Minas Gerais e São Paulo presenciam ou são vitimados por violência psicológica ao menos uma vez por semana, segundo a pesquisa “Desafios e Boas Práticas para Promoção de Saúde Mental nas Escolas”, feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Fundación Mapfre (braço social da seguradora Mapfre). 

 

O estudo avaliou o cenário nas escolas levando em conta as respostas de educadores dos dois estados, sendo 62% dos entrevistados com atuação em Minas Gerais e 38% em São Paulo. Os questionários foram respondidos por profissionais das redes públicas estaduais e municipais, além de educadores da rede privada. “Nosso objetivo é fazer um diagnóstico de como as questões de saúde mental afetam o trabalho dos professores e o aprendizado dos alunos. Por meio do Projeto Viver com Saúde: Saúde Mental nas Escolas, da fundação, tentamos formar professores para a temática da saúde mental em sala de aula. Muitos se sentem inseguros para lidar com isso”, explica o psicólogo, pró-reitor de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas na Unifesp e coordenador pedagógico do programa da fundação no Brasil, Anderson Rosa. 

 

O motivador para o início do projeto foi o massacre ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (São Paulo), em 2019. O tiroteio dentro da instituição deixou dez mortos e abriu uma série de outras ameaças e ataques por várias partes do Brasil. Dois anos antes, em 5 de outubro de 2017, o segurança da creche municipal Gente Inocente, em Janaúba, no Norte de Minas, havia ateado fogo à instituição. Dez crianças, três profissionais da educação e o autor do incêndio morreram.  “A incidência de problemas de saúde mental tem aumentado, as crianças têm apresentado quadros de depressão e crises de ansiedade cada vez mais cedo. Situações mais graves acontecem de forma frequente. Temos escolas com relatos de automutilação e casos de suicídio. No extremo, nosso projeto lida com situações desafiadoras. Ao final, esperamos que a formação dos professores repercuta nos estudantes”, afirma Rosa. Um estudo da Unicef aponta que 22% dos adolescentes e jovens brasileiros de 15 a 24 anos se sentem deprimidos ou têm pouco interesse em se engajar em atividades. Globalmente, mais de um em cada sete pessoas de 10 a 19 anos vive com algum transtorno mental diagnosticado.

O projeto da Fundación Mapfre cresceu e, atualmente, fomenta iniciativas em cinco estados do Brasil, segundo a representante deles no Brasil, Fatima Lima. “Observamos que, hoje, as questões de saúde mental têm se tornado um obstáculo que impede muitos docentes de exercerem seu papel de forma plena e, entre os alunos, representam uma barreira para a aprendizagem e para a convivência social. Nesse contexto, a Pesquisa sobre Saúde Mental nas Escolas nos ajudará a formular soluções e iniciativas para uma atuação integrada pela melhoria da saúde mental no ambiente escolar”, diz. 

 

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) divulgada nesta quarta-feira (25/03) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostrou que três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Quase metade (42,9%) dos alunos ouvidos responderam que se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa e 18,5% que pensam sempre, ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena de ser vivida”.

Em sala de aula, muitas vezes essa dor se manifesta em forma de violência e acaba agravando o quadro emocional da comunidade escolar. “Com certeza, quando falamos de violência psicológica, emocional e física dentro da escola, são mais de um caso por dia vividos por professores e por outros trabalhadores da educação. Os educadores lidam com diferentes atores ao mesmo tempo, em um ambiente marcado pela complexidade de emoções e vivências. Infelizmente, o problema começa com essa sobrecarga emocional”, pondera a diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte (Sind-Rede/BH), Vanessa Portugal.

Ela reforça que tem observado o adoecimento dos professores muito relacionado à precarização da profissão e à pressão que a categoria sente por carregar o peso de ser a “estrutura da sociedade”. “Se tenho uma sociedade mais violenta, isso chega às escolas. Com condições de trabalho cada vez mais exaustivas, os professores têm trabalhado mais, com menos tempo para refletir sobre o que acontece ali. Os trabalhadores se sentem sozinhos, e estamos acompanhando um aumento da ansiedade e das síndromes de desistência, como burnout e exaustão”, avalia. “A escola não tem como mudar a estrutura da sociedade, embora seja um elemento importante de contribuição”, desabafa.

 

No caso da professora Ana, antes de apresentar feridas pelo corpo, ela já tinha crises de choro na escola e um desânimo fora do comum. “Eu morria de vergonha, ninguém entendia. Falavam pelas costas, diziam que era coisa de louca. O psiquiatra me diagnosticou com depressão e estresse. Em uma ocasião, parei na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) pensando estar infartando”, conta. A melhora das feridas na pele veio um ano e meio depois, quando Ana percebeu que só a terapia não estava sendo suficiente e procurou um psiquiatra. “Eu só fiquei em casa por cinco dias, tempo de adaptação ao remédio. O médico queria me afastar, mas eu não aceitei. Estava no estágio probatório”, diz.

Apoio na instituição de ensino, ela só teve de uma amiga que já havia vivenciado crises de pânico. “Ela fazia exercícios de respiração e me ajudava”. Da direção, a professora afirma que nunca teve apoio. “Eu tinha problema com algum aluno, mas a direção ‘passava o pano’. Eles tinham medo de chamar a família. Eu ficava em um beco sem saída”. A solidão no educar foi sufocante. Em um dos vários desafios, Ana precisava acalmar um aluno que tinha crises de choro. “Ele parava, e eu começava. A mãe dele não aceitava levá-lo ao neurologista. Ele não tinha sequer o diagnóstico fechado”. Ao mesmo tempo, lidava com a violência. “Um dos alunos me desafiava o tempo todo. Ele saía o tempo todo da sala de aula. Um dia, falei que, se ele saísse, não era para voltar. Em seguida, fui com a turma para o baile de Carnaval que ocorreu no pátio. Ele jogou um skate em mim. Tive que ir para o pronto-socorro e fiquei dias mancando”, se recorda. A solução momentânea foi pedir a troca de turma e de horário. O episódio de violência ocorreu em 2023, mas a bomba de estresse estourou em 2024, com a dermatite. Atualmente, Ana* segue fazendo tratamento e arcando com custos elevados com medicação. Com o quadro mental mais estável, ela teme nunca mais se livrar dos remédios. “Meu maior medo é não conseguir controlar as emoções sem os medicamentos”.


Dor no silêncio


A psicóloga coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), que une vários institutos de pesquisa de São Paulo, Luciene Tognetta, explica que nem sempre as violências são visíveis. “Nossas pesquisas têm mostrado que, sobretudo no período pós-pandemia, houve uma mudança importante na forma como as violências aparecem na escola. O que cresce de maneira mais expressiva são as violências veladas, aquelas que muitas vezes passam despercebidas pelos adultos. Essas violências aparecem em formas como bullying, cyberbullying, exclusão social, solidão entre pares, humilhações sutis, isolamento e violências autoprovocadas. São manifestações que deixam marcas e produzem profundo sofrimento emocional. Mas o problema é que não são visíveis pelos educadores, não como deveriam ser. No dia a dia, esses comportamentos acabam sendo interpretados como desinteresse pelos estudos, “drama”, “mimimi”, fragilidade emocional ou até “vagabundagem””, explica. 

 

Ainda segundo Luciene, algumas questões vividas pela geração atual não podem ser ignoradas: “A geração de crianças e adolescentes que hoje frequenta a escola viveu experiências marcantes como a interrupção das relações sociais durante a pandemia e o aumento do tempo de exposição às telas e às redes digitais. Nossas pesquisas também têm indicado outro grande problema: o quanto aqueles que estão envolvidos em situações de violência se sentem menos pertencentes à escola. Sentindo-se menos pertencentes a um espaço que é o grande criador de vínculos na adolescência, onde vão encontrar um lugar que os acolha? Nos grupos fechados ou “panelas” online, que oferecem acolhimento identitário, mas também difundem valores nada morais. Não é aleatório, portanto, estarmos observando o crescimento de subculturas juvenis online marcadas por discursos de misoginia, racismo, homofobia e desprezo pelas diferenças. Para adolescentes que se sentem deslocados ou invisíveis, esses grupos podem oferecer uma sensação de valor e identidade, ainda que sustentada por ideologias excludentes”, analisa. 

 

Violência replicada 


A especialista em segurança pública e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões da UFMG (Femjusp), Ludmila Ribeiro, pondera que a comunidade escolar absorve dinâmicas sociais e é influenciada por jogos de poder externos, inclusive por questões de gênero, raça, classe e aceitação da diversidade. Segundo ela, esse cenário tem se refletido no aumento das notificações de violência nas escolas nos últimos anos, e professores passaram a se tornar, assim como os alunos, vítimas de um ambiente hostil.

“Há problema em todos os sentidos, não só de segurança pública, mas efetivamente de uma mudança na dinâmica escolar, para a qual ainda não estamos preparados. Quando pensamos, por exemplo, na violência contra a mulher, que também está escalando, há um avanço de grupos masculinistas que têm aliciado adolescentes. Talvez a violência na escola seja um primeiro sintoma desse processo”, detalha Ribeiro.

 

De fato, segundo ela, quando a rejeição à figura de autoridade — à qual as mulheres costumam estar mais expostas — chega à sala de aula, as professoras acabam se tornando mais vulneráveis. A pesquisa elaborada pela Fundação Mapfre e pela Unifesp aponta que as educadoras têm 80% mais chances de avaliar a própria saúde mental em categorias piores quando comparadas aos professores. Além disso, mais que o dobro das professoras relatou burnout em relação aos profissionais do sexo masculino. “O que precisamos, realmente, é repactuar essa dinâmica de interação entre professores e alunos para que a escola volte a ser interessante aos alunos, para que exista um regime de convivência agradável”, diz Ludmila Ribeiro. 

Ainda segundo Ludmila, as escolas têm colhido, nos últimos anos, consequências de uma interação social cada vez mais marcada pela divisão em “bolhas”. “A produção científica tem mostrado isso: são tempos de caixas de ressonância, bolhas e algoritmos. O que isso quer dizer? Hoje estamos viciados em interagir com pessoas que pensam, falam e sentem exatamente como nós. Se um adolescente pensa ‘vou atacar minha professora’, ele fica mais propenso a ouvir apenas quem diz ‘faça isso, vai ser legal’ e a ignorar ou até transformar em alvo quem eventualmente diga ‘isso é errado’”, explica.

Ribeiro acrescenta que o mundo virtual assume um papel importante no reforço de práticas violentas dentro da escola, espaço que inevitavelmente instiga o encontro com o diferente. Nesse sentido, o avanço da Inteligência Artificial (IA) também é motivo de preocupação. “A IA não só tende a concordar com o interlocutor, como também tem demonstrado, de modo geral, uma programação machista”, diz.

 

I-Capy: tecnologia é aliada no enfrentamento ao bullying 

Enquanto o enfrentamento ao bullying segue sendo um desafio, com aumento de denúncias nas escolas, iniciativas inovadoras da sociedade civil têm surgido. Um exemplo nasceu em Curitiba (PR) e já há planos de vertentes em São Paulo e Pernambuco. Trata-se do I-Capy, uma plataforma automatizada que ajuda a gestão escolar a identificar sinais precoces do problema e evitar violências mais graves. "Para nós (eu e meu sócio Amaury), ao longo da nossa trajetória em educação, tecnologia e inovação, ficou evidente que muitas situações de violência passam despercebidas ou são identificadas tarde demais. A partir disso, nasceu a ideia de criar uma solução preventiva, que atuasse antes que o problema se agravasse", explica o empreendedor Gustavo Henrique Soares Tedesco. 

A plataforma, acessível por computador ou celular, permite que os estudantes interajam com uma Inteligência Artificial (IA), participando de reflexões e desafios que estimulam o autoconhecimento e ajudam a identificar comportamentos de risco no ambiente escolar. “Essas interações são analisadas pela IA, que detecta possíveis sinais de bullying e classifica a gravidade das situações. A partir dessas análises, a plataforma gera insights estratégicos para gestores e educadores, permitindo intervenções mais rápidas, assertivas e baseadas em dados, fortalecendo a prevenção e o cuidado com a saúde mental dos alunos”, afirma o empresário.

Para se ter ideia, o chatbot é treinado com mais de 3000 frases tóxicas, 24 temas sensíveis e 12 subculturas digitais para esse tipo de detecção. Atualmente, a I-Capy está em fase de validação de protocolo clínico, em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), o InovaHC e a Prefeitura de Curitiba, o que reforça o rigor científico e a credibilidade da solução. "É um processo extenso e demorado, porém de fundamental importância visto que trataremos com dados sensíveis de menores de idade", diz Gustavo, representando a iniciativa que divide com o sócio, Amaury Dudcoschi Junior. 

 

Paralelamente, o desenvolvimento da plataforma está sendo concluído, com a estruturação da equipe de tecnologia e design viabilizada por meio da subvenção do Governo do Estado do Paraná, via programa Anjo Inovador. A previsão é iniciar a Prova de Conceito (POC) no segundo semestre deste ano.  


Ações do governo 


Procurado, o Ministério da Educação (MEC) disse reconhecer “a importância de promover o bem-estar e a saúde mental dos profissionais da educação básica, condição essencial para a qualidade do ensino e para o fortalecimento das relações no ambiente escolar”. Como ação prática, a pasta atua em articulação com o Ministério da Saúde e demais parceiros para a implementação da Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares (Lei n° 14.819/24), que integra as áreas da educação, assistência social e saúde, com foco na promoção da saúde mental, prevenção da violência e oferta de atenção psicossocial à comunidade escolar, incluindo professores e demais profissionais da educação. Além disso, o MEC busca estruturar ações para consolidar a Lei 13.935/19, que prevê a presença de psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de ensino. 

A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais afirmou, também em nota, que “desenvolve diversas iniciativas, destacando-se o acompanhamento dos servidores em readaptação funcional. Em julho de 2020, foi criado o Projeto de Avaliação de Saúde do Servidor (PASS), com o objetivo de oferecer acompanhamento especializado aos servidores, incentivando o tratamento e promovendo o fortalecimento das relações sociais no trabalho. A equipe multidisciplinar envolvida inclui profissionais de serviço social, psicologia, medicina do trabalho e médicos especializados em saúde mental”. 

 

O estado firmou uma parceria com clínicas-escola de cursos de graduação em psicologia, oferecendo vagas gratuitas de psicoterapia aos servidores. Além disso, foi criado o programa Guardiões da Escola, com a criação do Núcleo de Segurança, Psicossocial Estudantil e Proteção Escolar, responsável por coordenar ações de prevenção à violência, promoção da saúde mental, mediação de conflitos e desenvolvimento de protocolos de segurança nas escolas. “O objetivo é fortalecer um ambiente escolar seguro, acolhedor e propício à aprendizagem, promovendo o bem-estar de estudantes, profissionais da educação e de toda a comunidade escolar”, reforça a pasta. 

 

 

O tempo

Compartilhe: x
COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...