Vítimas de agressões, roubos e até homicídios, condutores adotam estratégias de proteção, como limitar horário e a área atendida
A corrida começa em um ponto movimentado, aparentemente seguro. Sem levantar suspeitas, passageiros entram no carro, mas, no meio do trajeto, anunciam o assalto. Motoristas de aplicativo são rendidos, mantidos reféns e têm celulares, documentos e até mesmo os veículos roubados. “Totalmente impotentes”, desabafa o condutor Marco Antônio de Resende. Em Minas Gerais, de janeiro a abril, foram registrados 747 crimes consumados contra motoristas de app, segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). As plataformas sustentam que oferecem medidas preventivas, e quem está nas ruas adota estratégias para se proteger e evitar danos.
De acordo com dados da Sejusp, o estado contabilizou 2.788 casos consumados de crimes contra a categoria ao longo de 2025. A pasta não especificou a natureza das infrações cometidas. Somente entre janeiro e abril do ano passado, foram feitos 1.053 registros. Embora em igual período deste ano o número tenha caído 29,06%, a média ainda preocupa: são mais de 186 ocorrências por mês e seis crimes registrados por dia contra motoristas de aplicativo no estado.
Na capital mineira, os números acompanham a mesma tendência. Em 2025, foram 1.338 crimes consumados contra motoristas de app, sendo 524 apenas nos quatro primeiros meses. Entre janeiro e abril deste ano, Belo Horizonte teve 336 ocorrências, uma redução de 35,88% em relação ao mesmo período do ano anterior. As médias ficaram em 84 ao mês e 2,8 ao dia.
ESTRATÉGIAS
Embora os dados consolidados não tenham a natureza do crime definida, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) traça perfis e modus operandi mais comuns das ocorrências. Segundo o delegado Felipe Façanha, a maioria dos casos envolvendo motoristas de aplicativo está ligada a crimes patrimoniais, como furtos e roubos, às ameaças e agressões verbais, além de golpes. Ele explica que os criminosos têm adotado estratégias cada vez mais elaboradas para ganhar a confiança das vítimas antes de agir.
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747
Crimes consumados contra motoristas de app de janeiro a abril deste ano em Minas Gerais
336
Crimes contra motoristas de app no primeiro quadrimestre deste ano em Belo Horizonte
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“Há modalidades de golpe criadas justamente para fazer o motorista acreditar que está diante de uma situação normal. Muitas vezes, a conta cadastrada no aplicativo aparece como sendo de uma mulher, por exemplo. Quando o motorista chega ao local, encontra criminosos”, afirma o delegado. Segundo ele, o perfil falso ou corridas solicitadas por terceiros funcionam como uma porta de entrada para roubos e furtos.
Outro golpe recorrente envolve a alteração do trajeto durante a corrida. “A pessoa pede uma viagem, por exemplo, da Pampulha ao Belvedere. No meio do caminho, os passageiros solicitam uma mudança de rota, mas sem alterar o percurso no aplicativo. Dizem que vão pagar em dinheiro e desviam o trajeto para cometer o crime”, explica. Felipe Façanha orienta que os profissionais evitem aceitar corridas em áreas apontadas pelos próprios aplicativos como regiões de risco e desconfiem de pedidos considerados fora do padrão das plataformas.
Há também registros de estelionato praticados por passageiros que entram no veículo já sem a intenção de pagar pela corrida. “Eles dizem que vão acertar depois, prometem fazer PIX ou pedem para abater em uma próxima viagem. Em alguns casos, mostram apenas a programação da transferência bancária, e não a confirmação do pagamento”, alerta Façanha. Segundo o delegado, o chamado “PIX falso” tem crescido entre os crimes contra motoristas. Embora furtos e roubos ainda representem o maior volume de ocorrências.
OFENSAS E AMEAÇAS
Além das perdas materiais, o delegado menciona episódios frequentes de violência verbal. Xingamentos, ameaças, injúrias e até ofensas racistas fazem parte da rotina de parte dos motoristas. “É uma situação complicada porque, na maioria das vezes, ficam apenas o motorista e o passageiro dentro do carro. Sem câmeras de segurança para se resguardar, acaba sendo a palavra de um contra a do outro”, avalia.
A Polícia Civil alerta também para o risco de o motorista ser usado, sem saber, como parte de uma ação criminosa. “O passageiro pode utilizar o transporte para chegar ao local de um crime e fugir depois. Dependendo da situação, o motorista pode até ser inicialmente tratado como suspeito ou coautor até que os fatos sejam esclarecidos”, explica o delegado. Ainda vale lembrar que danos provocados propositalmente ao veículo também configuram crime, embora muitos motoristas nem registrem ocorrência por desconhecerem esse direito.
DRIBLANDO A VIOLÊNCIA
Genilson Costa, de 49 anos, trabalha no ramo há oito anos. Nascido no Rio de Janeiro e residente em BH há 22 anos, ele falou dos riscos que enfrenta. “Estou nesse dia a dia, no sol, na chuva. Não tem jeito, temos que trabalhar e partir para cima. Já fui assaltado uma vez, levaram um carro meu. Hoje trabalho com um carro alugado”, relatou. Segundo ele, é quase impossível sinalizar que está com um suspeito dentro do carro. “Não sabemos se a pessoa vai roubar ou não, mas, se ela anuncia um assalto, como você aciona a emergência? Não tem como fazer nada”, disse.
Para ele, não existe horário específico para maior ocorrência dos crimes contra os motoristas. “A criminalidade está na rua a todo momento”, avalia. “Já trabalhei à noite e correu tudo bem. Mas já trabalhei durante o dia e tive sensação de que seria assaltado. O horário é indefinido, e o risco é constante”, destacou. A tática utilizada por Genilson é pegar clientes saindo do trabalho, hotéis e supermercados.
Jonathan Aparecido, de 45, sofreu duas tentativas de assalto. “Percebi o comportamento do passageiro, estava fazendo muito calor, e ele estava todo vestido com roupas de frio, além do destino. Parei o carro no meio da rua e pedi que ele descesse”, contou. O motorista considera o horário depois das 22h mais favorável para as ocorrências. “Mudei minha rotina, trabalho só até as 20h. Quando você está dirigindo, está sempre vulnerável. Também restringi as corridas ao Centro e Centro-Sul”, disse.
Atitude semelhante foi tomada por Marco Antônio de Resende, que só circula dentro da Avenida do Contorno. “Aqui é mais difícil ocorrer um assalto. Nas corridas mais longas, de uma cidade para outra, eles são mais comuns. O próprio navegador do aplicativo erra muito”, afirma. Dentro do trecho estabelecido, completa o motorista, o lucro também aumenta, em média, R$ 3,00 por quilômetro rodado. “Quando eu rodava longe, corria mais riscos. Uma vez peguei um passageiro que estava de capuz, fui conversando com ele até terminar a corrida. Foram 15 minutos de terror. Depois disso, decidi que não passaria mais por isso”, desabafou.
O condutor Carlos Sérgio Ferreira, de 57, está há oito anos no serviço. Hoje, ele opta por aceitar corridas apenas na modalidade “black”, com custos mais elevados, na Região Centro-Sul, e com pagamento via cartão. “A plataforma não passa 100% de segurança, o sistema tem muitas falhas”, afirma. Até hoje, ele não sofreu danos, mas acredita que a madrugada seja mais propícia para situações perigosas. Na sua visão, a blitz de trânsito é uma formas de inibir os casos de violência, bem como um cadastro detalhado dos passageiros na plataforma.
Para as mulheres, o risco ainda pode ser dobrado. Lucelia Ferreira Esequiel, de 31, trabalha como motorista de aplicativo há 4 anos e diz não se sentir segura. “Atualmente é muita criminalidade. Graças a Deus, não fui vítima de assalto, tentativa de roubo ou agressão durante uma corrida. Mas já aceitei uma corrida e chegando próximo ao local não fiquei confiante e cancelei”, relembrou. Agora, ela evita trabalhar à noite, durante a madrugada e ir a favelas.
PRISÃO
Há uma semana, um homem de 21 anos, suspeito de uma sequência de roubos violentos cometidos contra motoristas de aplicativo, foi preso pela Polícia Civil em Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH. Segundo a corporação, o homem fazia parte de um grupo criminoso especializado em ataques a motoristas vinculados a plataformas de transporte.
A investigação começou em dezembro do ano passado e revelou que os envolvidos no esquema solicitavam corridas em locais públicos de grande circulação na capital mineira e, durante o trajeto, anunciavam o assalto, “utilizando arma de fogo e violência física para subjugar as vítimas”.
Somente o jovem preso preventivamente foi relacionado a pelo menos quatro roubos entre abril e dezembro de 2025. Ele foi encaminhado ao sistema prisional, onde permanece à disposição da Justiça. Ainda não há informações sobre quantos participantes do esquema foram identificados.
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Prisão por estupro
Um motorista de aplicativo foi preso preventivamente pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), na quarta-feira, no bairro Santa Maria, Região Oeste de Belo Horizonte. Ele é suspeito de estuprar uma passageira, de 25, durante uma corrida. De acordo com informações repassadas pela corporação em coletiva de imprensa realizada ontem, a vítima havia iniciado a corrida no bairro Alto Caiçara, em companhia de um amigo, que desceu em determinado ponto do trajeto. O motorista teria oferecido corrida “por fora” da plataforma, a R$ 10, para levá-la em casa, e pediu que ela se sentasse no banco da frente, justificando que estava sem acesso à internet e precisava de ajuda para seguir o trajeto. Em seguida, teria tentado beijar a jovem, exposto o órgão genital e forçado a mulher a tocá-lo. A mulher relatou que escapou após ameaçar se jogar do carro, o que fez com que o motorista recuasse.
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No último dia 10, o corpo de um motorista de aplicativo de 27 anos foi encontrado com um corte no pescoço às margens da Represa Várzea das Flores, em Betim, na Grande BH. Ele havia desaparecido durante o trabalho. De acordo com a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), três suspeitos, de 20, 28 e 39 anos, foram presos.
MEDIDAS PREVENTIVAS
Procurada pelo Estado de Minas, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne empresas associadas que atuam em atividades relacionadas à mobilidade de bens ou pessoas, disse que as plataformas investem em ferramentas como compartilhamentos de localização com contatos de segurança e gravação de áudio.
“existe? a integração das plataformas com o sistema 190, que permite ao motorista acionar uma ferramenta de emergência que envia os dados da viagem em tempo real para as centrais de atendimento da Polícia Militar”, disse em nota. São associadas: 99, Alibaba, Amazon, Buser, iFood, Flixbus, Lalamove, Shein, Uber, Zé Delivery.
*Estagiária sob supervisão da subeditora Rachel Botelho / Estado de Minas
